terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O método (I): o que a ciência diz

O único princípio que não impede o pogresso é tudo vale.
(Paul FEYERABEND)
Toda ciência é a construção de um léxico e de uma gramática próprios, de que os jargões e as terminologias são a evidência empírica mais contundente. Neste sentido, as ciências demarcam e ocupam, privatizando-a, uma região da língua de uso geral, da qual os não-especialistas somos progressivamente expulsos. Essa desapropriação, como todas as desapropriações, é feita em nome de um suposto bem comum: o progresso da ciência dependeria de uma reengenharia lingüística, de uma terapia verbal, de uma reocupação privada dos espaços públicos da língua, sem a qual a produção e a transmissão do conhecimento técnico seriam lentas, imperfeitas e acidentais.

É sobejamente conhecido o roteiro dessa grilagem lingüística. Antes de tudo, constrói-se e consolida-se o consenso em torno da imprecisão da língua comum, que seria inadequada (improdutiva) para a descrição científica. Em seguida, propõem-se estratégias sanitárias: a higienização da sintaxe, a pasteurização da fraseologia, a uniformização e a homogeneização do vocabulário, o expurgo das formas mais resistentes à univocidade, e a recolonização - por meio de empréstimos, de derivações e outros neologismos eugênicos - de regiões desabitadas ou subabitadas do léxico. Em torno dessa novilíngua, e supostamente para defendê-la da inevitável contaminação, por contato, com outras doenças lingüisticamente transmissíveis, cavam-se fossos cada vez mais fundos, erguem-se muros cada vez mais altos.

Em pouco tempo, essa língua supostamente sã passa a ser, et pour cause, também santificada. Julgando-se livre de toda sorte de patologias sintáticas e semânticas, como a vagueza e a polissemia,
essa província lingüística promove o seu próprio grito do Ipiranga e torna-se reino discursivo: autônomo, esotérico e totalitário, onde a cidadania passa a ser, gradativamente, um privilégio e uma prerrogativa apenas dos inscritos nas guildas e corporações. Fecham-se as fronteiras discursivas; impõem-se longas jornadas de quarentena acadêmica a todos os imigrantes; nomeiam-se embaixadores (os "vulgarizadores") encarregados das trocas simbólicas com o estrangeiro; e formam-se milícias que passam a vigiar e a punir o uso não-parafrástico dos enunciados tolerados.

Sabemo-lo bem os pesquisadores, os membros dos conselhos editoriais e os pareceristas das revistas científicas, os avaliadores de trabalhos submetidos a eventos científicos, os professores universitários. O direito à fala - pelo menos nos canais institucionais - não é universal: só pode haver fala do que se repete. Não do que se repete, evidentemente, na superfície aparente dos enunciados; mas do conjunto de propriedades definitórias que tornariam "científicos" os enunciados, que variam de ciência para ciência, mas que compartilham, em larga medida, os mecanismos da citação, da referenciação, da impessoalização, da literalização, etc.
Fora das fronteiras discursivas demarcadas por uma determinada disciplina científica não há ciência; há, quando muito, opinião. E, por conseqüência, o ostracismo.

Há pelo menos dois roteiros disponíveis para explicar o descredenciamento dessa diferença. O primeiro, e mais óbvio, é freudiano (ou caetaneano): Narciso acha feio o que não é espelho. A diferença será, necessariamente, e sempre, uma deficiência: é a evidência de que falta, ao outro, algo para que ele se torne igual a mim. Ou de que sou, em última análise, mais completo do que o outro e, portanto, superior a ele. A alternativa é existencialmente muito complicada. Perceber-me menor ou menos completo do que o outro é, quase sempre, um excelente motivo para não ver nenhum motivo na vida. O recalque tem muitas máscaras (etnocentrismo, linguocentrismo, etc.), e certamente explica a intolerância científica em alguns círculos menos autocríticos.


Há, porém, pelo menos um outro roteiro disponível: a História. Existe disseminada no meio científico a idéia de que a ciência é, sobretudo, coletiva. Embora haja ainda espaço para a figura do gênio individual, parece evidente que nenhum dos grandes cientistas teria chegado aonde chegou se tivesse tido que reinventar, a cada geração, a mesma roda. A cultura e as formas de transmissão da cultura - principalmente a escrita - permitiram que nossa experiência de mundo deixasse de ser pessoal e se transformasse em transgeracional. Nossos erros e acertos passaram a ser comunicados à nossa descendência, por mais que acreditemos que nossos discípulos sejam completamente surdos às nossas recomendações. Esta é uma evidência poderosa a favor do circuito de produção científica. Quem quer que se proponha hoje a produzir conhecimento, deve, necessariamente, vasculhar o passado à procura da experiência alheia, para evitar as mesmas armadilhas e não incorrer nos mesmos erros. Depois de 6000 anos de civilização, é pouco provável que nossos problemas sejam realmente novos ou apenas nossos. Fugir a este compromisso não seria apenas um atestado de preguiça, de indisciplina ou de arrogância intelectual; seria sobretudo uma prática egocêntrica que deveria ser expressamente desencorajada por toda sua conotação anti-social.

O problema com este segundo argumento é o historicismo. Em primeiro lugar, seria preciso analisar, mais a fundo, o conceito de "passado", que é normalmente tomado como verdade auto-evidente, como ponto de partida axiomático de toda exploração cronológica. Parece-me claro, por exemplo, que o passado é construído no e pelo presente; que nosso acesso ao passado faz-se apenas pela mediação da memória que, sendo invididual ou coletiva, está em permanente processo de reorganização e, portanto, de ressignificação das experiências. O passado é, pois, muito mais volátil do que pode supor nossa vã filosofia. E a relação entre passado e presente me parece, em conseqüência, marcadamente dialógica: o presente não é um apenas um corolário ou uma função linear do passado, mas a própria condição que faz, do passado, passado, ou o sistema axiológico a partir do qual o passado constitui uma narrativa presente.

Em segundo lugar, o argumento opera uma visível patrimonialização de nosso acervo cultural que, levada às últimas conseqüências, pode se tornar mais um freio prescritivista do que um incentivo à criação. É o que observaram, entre outros, Henri Poincaré, Imre Lakatos, Thomas Kuhn e Paul Feyerabend, que denunciaram, cada um à sua maneira, o caráter histórico da produção científica, também ela sujeita às vicissitudes que caracterizam a condição humana: a vaidade, a inveja, a avareza, a luxúria, a ira, a preguiça, a gula, para ficarmos apenas entre os sete pecados capitais. A história da ciência não é mais asséptica do que a da arte e a da religião.

Tudo isso me parece claro. Sentia-o muito antes de poder formulá-lo, como vítima, eu também, do cárcere de ferro dos protocolos de produção científica. E vi, também eu, os melhores espíritos de minha geração destruídos pela loucura, morrendo à fome, histéricos, nus, arrastando-se de madrugada pelas ruas dos negros à procura da droga urgente imperiosa, tipos fixes com cabeleiras de anjo ansiando pela antiga conexão celeste ao dínamo de estrelas na maquinaria da noite, que pobres e rotos e olheirentos e bêbados ficavam a fumar na escuridão sobrenatural de apartametos com água fria flutuando sobrer os telhados das cidades contemplando o jazz.


Exilemo-nos, pois. Opinemos. E impressionemo-nos. Libertemos a linguagem do jugo dos protocolos. Produzamos um des-conhecimento contra-canônico. Que não seja lingüística, posto que é chama, mas que seja lingüisteria enquanto dure.

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