Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
"Mãos Dadas", por Carlos Drummond de Andrade
O resumo, normalmente breve, apresentaria ao interlocutor o tema da trama:
"Vou contar uma história que recebi por e-mail. É muito engraçada."
Em seguida, a orientação definiria, principalmente, o espaço e as personagens:
"Manuel estava visitando um parente num hospital psiquiátrico acompanhado do diretor".
A complicação deflagraria a narrativa propriamente dita:
"Foi quando resolveu perguntar ao diretor:"
"- Qual é o critério pelo qual vocês decidem quem precisa ser hospitalizado aqui?"
A complicação prossegue, intercalada eventualmente por estratégias de avaliação da atenção do interlocutor:
"Você sabe como é um hospital psiquiátrico, né?"
A complicação continua:
"O diretor respondeu: "
"- Nós enchemos uma banheira com água e oferecemos ao doente uma colher, um copo e um balde e pedimos que a esvazie. De acordo com a forma que ele decida realizar a missão, nós decidimos se o hospitalizamos ou não."
Há complicações breves e há complicações dostoievskianas:
- "Entendi, uma pessoa normal usaria o balde, que é o maior que o copo e a colher."
- "Não, uma pessoa normal tiraria a tampa do ralo."
A complicação terminaria com a resolução:
- "O que o senhor prefere: quarto particular ou enfermaria?
Ao final, quase sempre surge nova avaliação:
"Você entendeu, né?"
E não é raro que as narrativas sejam encerradas por uma coda:
"[Dedicado a todos os que escolheram o balde]"
O modelo comporta, evidentemente, variações. É comum que a orientação e a complicação apareçam juntas, ou que a orientação seja simplesmente suprimida, em nome da agilidade da narrativa. O resumo e as avaliações são característicos, principalmente, de narrativas orais, em que a interação é imediata. E a coda também não é obrigatória. Enfim: o modelo é apenas um modelo, e guardo sérias desconfianças sobre sua pertinência teórica e sua utilidade prática, principalmente depois de asssistir aos filmes de David Lynch. No entanto, é tentador aplicá-lo à narrativa que se quer desenvolver aqui.
A complicação - claro está - é o problema, e este longo preâmbulo me parece absolutamente dispensável para que se venha a afirmar aqui que este blog, como todos os blogs, parte de um problema, para o qual procura alguma solução. Mas a analogia com a narrativa não é apenas um interminável circunlóquio, embora seja ainda um exercício inútil e embolorado de academicismo. A narrativização da teoria me oferece um álibi e uma forma de composição: posso sentir-me livre para escrever um blog sobre meus problemas com a linguagem porque os blogs se manifestam num eixo que será, como o das narrativas e como o dos meus problemas, explicitamente temporal.
E há ainda um interessante efeito colateral. Os textos acadêmicos definem-se, principalmente, a partir de uma metáfora espacial; subdividem-se em regiões específicas (Introdução, Revisão Bibliográfica, Compilação dos Dados, etc) de sintaxe relativamente rígida e vocabulário muito controlado; organizam-se segundo protocolos de escrita muito vinculados a uma história que, a esta altura das frustrações, talvez já não seja interessante reproduzir. Nutro a esperança de que os posts que se vão publicando aqui se organizarão a partir de uma outra dimensão intelectual, com outros mecanismos de coesão e de coerência, mais fiéis talvez ao meu desregramento teórico, e que venham a permitir, quem sabe, o surgimento de um novo novo, de um outro outro, de um sentido efetivamente sentido.
Como um caderno de esboços, não tenho aqui nenhum compromisso senão com o registro de impressões selvagens sobre a linguagem que, a sobreviverem ao efeito sanitário do tempo, poderei mais tarde acrisolar, domesticar, encarcerar nos cânones da produção científica contemporânea.
E aos eventuais críticos, poderei anunciar, lacanianamente, que não faço aqui lingüística nenhuma; faço linguisteria.
Porque o tempo, e não a linguagem, é a minha matéria.

A riqueza de arranjo estético, contida nas palavras desta postagem, proporciona ao leitor, uma magnifitude de pensamento, mesclada às mais sublimes sensações, cujo ser humano se permite experimentar.
ResponderExcluirA primeira leitura pode parecer, a princípio, um banquete, contendo várias caixinhas de presentes essencialmente valiosos. A construção das sentenças e dos parágrafos, remete-nos a reflexões, que se propagam, como uma espécie de desenhos e pinturas, onde as palavras são os riscos e a linguagem, a tinta.
Na leitura seguinte, torna-se possível retirar o lacre de algumas caixinhas, mas, nem todos tem acesso às jóias inseridas. Quando há o reconhecimento dos itens, muitas vezes, não há a compreensão de sua serventia. Em ambos os casos, revelando ou não, os segredos das surpresas, é nítida a constante excelência apresentada em todo o conteúdo.
São, nas leituras subseqüentes, que os mistérios, vão aos poucos, sendo desvendados. É formidável, perceber, a cada leitura deste texto, novas sensações e diferentes aprendizados.
Finalizo meu comentário, declarando meu amor aos três incentivadores de minha humilde iniciativa.
Em primeiro lugar, declaro-me às palavras, as quais são capazes de transformar, modificar e alterar um estado corpório, mental e espiritual dos mais diversos seres.
Em segundo lugar, me confesso apaixonada pela língua, que auxilia, com extrema sabedoria, aos nossos mais variados níveis de expressão.
Por último, porém não menos importante, amo os colaboradores, escritores e conhecedores das duas pedras preciosas, as quais, prazeirosamente tentei descrever. São eles, os responsáveis pelo cultivo de tão cruciais itens. A palavra e a língua são sublimes sementes, que cultivadas em terra fértil, por sensíveis e especiais agricultores, transformam-se em saborosos frutos, que nós, os admiradores, nos esforçamos para colhê-los, tentando extrair deles, o sabor e as vitaminas, capazes de nos alimentar e saciar nossa fome de saber.