We shall not cease from exploring
And at the end of our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.
(T. S. Eliot)
Sou onde não penso; e penso onde não sou. O leitor improvável destas minhas crônicas esquipáticas talvez não saiba ainda que a confissão não é (apenas) minha, e que esta não é a primeira vez que a uso como advertência vã. Sim, lasciate qui ogni speranza, voi che entrate. A primeira pessoa do singular que aqui se oferece não sou, necessariamente, ou somente, eu. Quem primeiro disse ter sido onde não pensou, e ter pensado onde não foi, já não está mais: era Jacques Lacan, também responsável, entre outras lacanagens, pela "linguistérie", de que o título deste blog faz óbvia (des)apropriação.
Também eu, porém, sinto ser-me onde não penso, e sinto pensar (e pensar-me) onde não sou. E é neste ponto que Lacan, fantasmagoricamente, prolonga-se e sobrevive em mim. Não como um mestre que inspira reverência e respeito; mas como um pai castrador que será preciso matar. Este blog não será, pois, e a despeito de seu nome, um território lacaniano; será antes um exercício, entre narcisista e niilista, de translacanização.
(Cría cuervos y te sacarán los ojos...)
O roteiro, que aqui se repete também como farsa, é em tudo edipiano: será preciso, em primeiro lugar, decifrar o segredo da esfinge, para conquistar o trono de Tebas e o leito de Jocasta; será preciso parir Etéocles, Ismênia, Antígona e Polinice; e será preciso, por fim, furar os próprios olhos e exilar-me, revelada toda a tragédia.
A esfinge, porém, é outra. E outro é o enigma: Por que não posso ser onde penso ou pensar onde sou?
Quero crer - e o querer não será aqui mera figura de linguagem - que a resposta é uma só: porque a língua outra-me. A língua me altera, me aliena, me afasta de mim; a língua me fora, me desdentra, me expele; a língua me esvazia, me encarcera, me volatiza. A língua me dessubjetiva. A língua me objeta.
Sim, sou lá onde a língua não me alcança. E onde não há língua, não poderá haver pensamento.
Será? Ou será possível pensar fora da língua? Ou será possível conhecer esse outro lugar aonde a língua não chega? Ou será possível saber-me (e entender-me) sem dizer-me?
O claro enigma se transcria, e a esfinge me devora.
Poderá parecer, à primeira vista, que faço aqui novo apelo ao platonismo ou a alguma outra forma de essencialismo. Que também eu deploro o caráter equívoco da linguagem. Que também eu aposto no caráter derivado, representacional, de mero labéu, do signo lingüístico. Que também eu tomo a língua por imperfeita imitação da vida.
Não, absolutamente!
Minha metáfora não é o tempo, mas o espaço. O "eu" que a língua torna "nós" não é o antes, mas o outro. Não se trata de um estágio pré-sígnico ou in-sígnico - e por isso mais puro, mero objeto - de mim mesmo. Trata-se, sim, de minha idiossemiose, de um signo solipsista que, sendo tão sujeito, não poderá ser jamais objeto; sendo tão singular, não poderá ser jamais compartilhado; sendo tão privado, não poderá jamais ser público. Trata-se, em última análise, de um idiomeu, que manterá - será? - inúmeros pontos de contato com o conceito de "lalangue".
O signo que me instaura não é o signo que me significa. A língua que falo não é a língua que me fala. E será preciso, pois, surpreendê-la, revirá-la, desmontá-la, removê-la, a esta diferença. Ainda que, ao fim desta exploração, descubra-me de volta ao início, apenas para que possa conhecer este novo e mesmo lugar pela enésima primeira vez.

O silêncio, diante do conjunto de ideias que se estabelecem no texto apresentado, seria talvez, a melhor alternativa, pois assim, a chance de equivocar-me ante à mensagem pretendida, estaria, obviamente, descartada. Em uma análise secundária, totalmente oposta a esta, o mesmo silêncio pode representar a prisão de um pássaro que deseja voar, ou a omissão de um retorno necessário. Tenho plena consciência de que as palavras que escrevo, não alcançarão os objetivos dos supostos leitores e, sequer, atingirão as expectativas do escritor, entretanto, preferi obedecer aos meus instintos e decidi optar pela segunda análise, tornando público meu humilde entendimento ante às árduas leituras desta tão sublime filosofia “Ronaldiana”.
ResponderExcluirNão tenho, com esta escrita, a pretensão de criticar ou analisar os ideais sabiamente expostos. Quero sim, timidamente, confessar minha total identificação com os pensamentos “Ronaldianos”, que baseados, denotativa ou conotativamente, no psicanalista Jacques Lacan, revelam, de maneira brilhante, as complicações do verbo irreegular, “SER”, e do verbo regular, “PENSAR”.
Precisei de realizar, ininterruptamente, diversas leituras, para enfim, perceber, de modo particular, que não há uma conclusão óbvia. Ser, teoricamente, antecede o pensar, pois, se não somos, de fato, não pensamos. Ao pensarmos, contudo, alteramos o estado inicial de sermos; logo, quando pensamos, já não somos o que éramos antes de pensarmos.
Há ainda, um terceiro item, que surge para incrementar a reflexão. Trata-se, portanto, da linguagem, que diverge, à medida que somos, pensamos, sentimos e falamos. Por fim, concluí, através de inúmeras leituras e breves pesquisas do desconhecido, que não expresso, quase nunca, o que realmente penso, porque minha linguagem de pensamento não é a que quero pensar. Não sou, apenas represento, porque realmente, não sei e talvez não queira, saber quem sou. A linguagem que falo, não me pertence. Meus sentimentos são,de alguma forma, o que realmente quero ser, mas, no momento, opto por ignorá-los, para assim, não mostrar a mim mesma, quem realmente devo ser.